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BLOG/VALOR

O Poder de Produzir Comida

Crescimento populacional, clima e geopolítica colocam a terra agrícola no centro da disputa global por segurança alimentar.

José Pontes
09 de abril de 2026

O valor estratégico da terra agrícola voltou ao centro da geopolítica global. Em um mundo que já abriga mais de 8 bilhões de pessoas e caminha para quase 10 bilhões até meados do século, a capacidade de produzir alimentos tornou‑se um elemento de poder comparável ao petróleo no século XX. A disputa por territórios produtivos deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a integrar o cálculo de segurança nacional de governos, fundos soberanos e grandes investidores.

Terras agrícolas produtivas tornam‑se ativos estratégicos em um mundo pressionado por clima, demografia e segurança alimentar.

A pressão começa pela matemática demográfica. A população global deve saltar de cerca de 8,2 bilhões de pessoas em 2024 para aproximadamente 9,7 bilhões em 2050. Esse crescimento exigirá um aumento de 60% a 70% na produção mundial de alimentos em relação aos níveis do início do século. A produção anual de cereais precisará se aproximar de 3 bilhões de toneladas, enquanto a produção de carne deverá avançar de cerca de 270 milhões para algo próximo de 470 milhões de toneladas nas próximas décadas.

O problema é que a base física que sustenta essa produção não cresce na mesma velocidade. O planeta possui cerca de 1,6 bilhão de hectares de terras cultiváveis, apenas 12% da superfície terrestre. Mais preocupante é a queda contínua da terra arável disponível por habitante. Em 1960, cada pessoa dispunha em média de 0,42 hectare produtivo. Em 2021 esse número caiu para cerca de 0,20 hectare e a projeção para 2050 é de apenas 0,19 hectare.

Ao mesmo tempo, a degradação dos solos e os efeitos climáticos ampliam a pressão sobre o sistema alimentar. Nas últimas décadas, a produtividade agrícola global já é cerca de 21% menor do que seria sem as mudanças climáticas. Modelos recentes indicam que os rendimentos globais podem cair cerca de 8% até 2050 mesmo considerando a adaptação dos produtores. Em paralelo, cerca de 12 milhões de hectares de terras aráveis são degradados todos os anos, enquanto mais de um terço das áreas agrícolas do planeta já apresenta algum nível de deterioração do solo.

Esse quadro ajuda a explicar por que governos e investidores passaram a tratar o acesso à terra produtiva como ativo estratégico. Desde o início dos anos 2000, dezenas de milhões de hectares foram adquiridos por investidores internacionais em operações conhecidas como land grabbing. Fundos soberanos do Oriente Médio, empresas chinesas e grandes investidores institucionais ampliaram presença em projetos agrícolas ao redor do mundo.

A China tornou‑se um dos atores centrais desse movimento. O país é hoje o maior importador de alimentos do planeta e mantém enormes reservas estratégicas de grãos. Estimativas indicam que o país controla aproximadamente 69% das reservas globais de milho, 60% das de arroz e mais da metade das reservas mundiais de trigo. A segurança alimentar foi elevada a prioridade estratégica do Estado chinês.

A dimensão geopolítica dessa disputa ficou evidente após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Juntos, os dois países respondiam por parcela relevante do comércio mundial de grãos. O conflito interrompeu exportações, elevou os preços do trigo em quase 60% em poucos meses e levou dezenas de países a impor restrições comerciais sobre alimentos. O episódio demonstrou que cadeias agrícolas globais podem se tornar instrumentos de pressão geopolítica.

Paralelamente, a terra agrícola consolidou‑se também como classe de ativo financeiro. O valor global das terras agrícolas aproxima‑se de 10 trilhões de dólares, e o mercado continua atraindo capital institucional. Nos Estados Unidos, a terra agrícola apresentou retorno médio anual superior a 10% nas últimas décadas, com volatilidade muito menor que a observada no mercado acionário. Esse perfil tem levado fundos de pensão, seguradoras e gestores globais a ampliar a exposição ao setor.

Nesse cenário, poucos países ocupam posição tão singular quanto o Brasil. O país concentra cerca de 12% das reservas de água doce do planeta, possui grande disponibilidade de terras potencialmente cultiváveis e opera um sistema agrícola capaz de produzir duas ou até três safras anuais na mesma área. Nas últimas décadas, a produção brasileira de grãos cresceu mais de cinco vezes enquanto a área plantada pouco mais que dobrou, evidenciando ganhos relevantes de produtividade.

Hoje o agronegócio responde por cerca de 23% do PIB brasileiro e quase metade das exportações do país. A China é o principal destino desses produtos, absorvendo aproximadamente um terço das vendas externas do setor. O Brasil consolidou‑se como um dos maiores exportadores mundiais de soja, carnes, café, açúcar e algodão.

Ao mesmo tempo, essa posição estratégica também revela tensões estruturais. O Cerrado, responsável por cerca de 60% da produção agrícola nacional, já perdeu quase metade de sua vegetação nativa e enfrenta sinais crescentes de pressão hídrica. A expansão da fronteira agrícola continua sendo uma das principais forças de transformação territorial do país.

No longo prazo, a disputa global por alimentos tende a tornar a terra produtiva ainda mais valiosa. Em um sistema alimentar pressionado por clima, demografia e geopolítica, o controle sobre territórios capazes de produzir em escala pode definir novas hierarquias de poder no século XXI.